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Maio ainda é mês dos Povos Originários

Na última semana de abril – o mês dos povos indígenas -, o cacique kaingang Mauricio Ven-Tãhn Salvador andou pelas duas maiores cidades do RS levando saberes e transmitindo conhecimento. 

Na terça, dia 28, esteve em dois centros culturais de Caxias do Sul (CEU Estação Cidadania, no bairro Cidade Nova, e Ordovás, no Centro) para participar dos eventos de lançamento do livro “A resistência de Curi”. 

A obra, com fotos de Tatieli Sperry e textos de Alessandra Rech, homenageia a araucária, espécie que tem ligação espiritual com os kaingang. “Fui convidado para contar como essa árvore é importante para o meu povo, e que é nosso dever resistir ao lado dela.”, relata Mauricio. 

Sua esposa, Nathalia Moura, que pertence à etnia charrua, contou no caminho como se sente quando vê o nome de seu povo, antes considerado extinto, sendo hoje utilizada por postos de combustível, refrigerante e fábrica de erva mate: “É triste essa apropriação do nosso legado, da nossa força. Eles têm que pagar por se utilizarem da nossa imagem e tudo o que representamos.”

No dia seguinte, quase toda a aldeia kógunh mág saiu cedo de Canela em um micro-ônibus fretado rumo à capital. O objetivo era a validação final das traduções de documentos jurídicos para seu idioma nativo, finalizando o LIVD – Língua Indígena Viva no Direito, projeto financiado pela Advocacia-Geral da União e Ministérios da Justiça e dos Povos Indígenas.

Fernando Gomes, coordenador da ADICUCA (Associação de Difusão Cultural do Canella), parceira da aldeia neste projeto, destaca o esforço de todos os envolvidos: “Foram quase 15 meses até de muito trabalho, e aqui vemos mais uma conquista destes guerreiros kaingang. Este povo, lamentavelmente, segue sendo atacado, com muito preconceito pela sociedade que nos cerca. Mas é assim, demonstrando a garra em preservar sua cultura, verdadeiro patrimônio brasileiro, que eles respondem.”

Antes da chegada à UFRGS, o grupo visitou no Museu de Arte do Rio Grande do Sul a exposição do parente José Verá Mbya Nhenhandu Reko, liderança mbya guarani da aldeia Yvytã Porã, de Maquiné/Riozinho. Além desta exposição, o MARGS também apresenta MAHKU – Vende tela, compra terra, de artista da nação Huni Kuin, situados entre o Acre e o Peru na floresta amazônica. Juliana Lopes, artesã kaingang, relata que adorou a experiência de estar no museu conhecendo arte indígena. 

IMPORTANTES PRESENÇAS NACIONAIS

No início da tarde, o Centro Cultural da UFRGS já estava cheio de autoridades, como Edilson Beniwa, do Ministério dos Povos Indígenas, Alan Brito, Pró-Reitor de Ações Afirmativas e Equidade (PROAFE) e Carlos Portugal, presidente do IDGlobal – a entidade celebrante do LIVD. Após a abertura com palavras do cacique, seguiu-se o ritual de dança para abrir o evento. Viviane Jag Fej, representando a ADICUCA, discursou sobre o orgulho em ocupar espaços e instituições. 

Integrantes do IDGlobal, os bolsistas indígenas Julia Soares e Ademir Garcia conduziram a tarde, que encerrou com a leitura em kaingang de artigos da Constituição Federal e da Convenção 169 da OIT e trechos de Objetivos Sustentáveis da ONU. 

NOVIDADES E PRÓXIMOS PASSOS 

Na última semana soube-se que o Ministério Público Federal propôs ação civil pública para responsabilizar um veículo de Canela que publicou uma charge ofensiva ao povo kaingang. A indenização prevista é de R$100 mil. 

Já na semana que vem, 13 de maio, o representante da ADICUCA Fernando Gomes participará em Brasília de mais uma etapa do LIVD, no evento “Língua Indígena Viva do Direito: Avanços e Perspectivas na Tradução de Textos Jurídicos para Línguas Indígenas”. Trata-se de um encontro fundamental entre instituições públicas, pesquisadores e lideranças indígenas para dialogar sobre os avanços e os desafios desta agenda.

O cacique Mauricio e os tradutores tradicionais kaingang foram convidados mas infelizmente não poderão comparecer. Ficamos aqui com as palavras do cacique após o término deste histórico abril, o mês dos povos indígenas.

“Aqui na serra gaúcha, meus ancestrais foram duramente massacrados com a chegada dos europeus. Nós resistimos, e hoje não buscamos apenas nosso direito de existir. Nós viemos retomar o que nos foi tirado, e vamos avançar na reconquista de nossas terras, nossos saberes e modos de viver.”, finalizou, refletindo sobre a atual situação dos povos originários em nossa região. 

Fotos: Alass Derivas

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