“Se você tem umbigo, você veio de algum lugar.” Com esta frase, Kerexu Yxapyry ressignificou, definitivamente pra mim, a expressão “olhar para seu próprio umbigo”. Enquanto, de forma geral, associamos a expressão a pensar somente em nós e ao individualismo, ela traz uma visão completamente diferente: olhar para nosso umbigo é ter a consciência de que saímos de algum lugar, no caso, o útero da nossa mãe. A partir disso, necessariamente, temos consciência de que, sem nossa ancestralidade, não existiríamos. Somos no mundo porque alguém veio antes. E reforça o pensamento de todos os povos originários do planeta: existimos em conexão com a natureza, da qual fazemos parte.
Originária do povo Guarani Mbya de Santa Catarina, Kerexu se tornou a primeira cacica mulher a ser reconhecida no país. Além disso, é mãe, professora, pesquisadora e gestora ambiental, formada pela UFSC, uma liderança Guarani que atua nacional e internacionalmente em defesa dos Povos Indígenas e do Meio Ambiente. E, nessa visão, ela não está sozinha. Ailton Krenak ressalta sempre que os problemas da humanidade têm origem na desconexão com a natureza. Enquanto acreditarmos na falácia desse distanciamento— e, pior, na da superioridade humana em relação aos demais seres—estamos fadados a não durar muito. E, como sempre digo: a natureza e o planeta terra não estão preocupados e, menos ainda, sentirão nossa falta.
Mas não só os povos originários têm essa consciência, e cada vez mais cientistas alertam para as consequências dessa forçada desconexão. Para o físico e astrônomo brasileiro Marcelo Geisler, por exemplo, essa separação é uma construção histórica que legitima exploração ambiental. Ou seja: destruímos o planeta porque, erroneamente, acreditamos que não somos parte dele. Para ele, a relação com a natureza não é só teórica, e envolve escolhas sociais e políticas. Ele aponta para a necessidade de repensar desenvolvimento, consumo e formas de vida.
Mas podemos ir além: a Declaração de Veneza, publicada pela UNESCO em 1986, já defendia que a crise contemporânea é consequência da separação entre ciência tradicional, valores e outras formas de conhecimento, propondo sua superação por meio da integração com saberes tradicionais e uma nova relação com a natureza. O documento diz que ciência e tradição não são opostas, e que seu encontro pode gerar uma nova visão da humanidade, sugerindo que “o estudo conjunto da natureza e do imaginário, do universo e do homem” permite uma aproximação mais profunda da realidade.
Que possamos, sim, olhar para nosso umbigo, no melhor sentido da palavra. Ou seja: conscientes das nossas origens e da nossa real posição na natureza e no planeta.
Para saber mais:
Sobre Keretxu:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Kerexu_Yxapyry#:~:text=Eunice%20Antunes%2C%20nome%20em%20Guarani,pertencente%20ao%20povo%20mby%C3%A1%20guarani.
Sobre Marcelo Gleiser:
https://marcelogleiser.com/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_Gleiser
https://www.otempo.com.br/interessa/marcelo-gleiser-defende-a-sacralidade-do-planeta-1.3362947
Declaração de Veneza:
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000068502_por.locale=en


