O Atelier dos Bonequeiros, em Gramado, reafirma-se como um dos raros refúgios de resistência cultural na cidade. No dia 20 de março, o espaço foi palco de um encontro necessário: a discussão sobre a presença feminina nas artes, mediada pela produtora, bonequeira e artista Beth Bado, com a participação de Lisi Berti e Fernanda Dahmer.
A provocação central veio diretamente da mediadora que, ao conduzir o painel “Mulher no Palco”, lançou um questionamento incômodo:
“É maravilhoso estar aqui entre artistas tão potentes debatendo a importância da presença, trabalho e produção de mulheres na cena cultural de Canela e Gramado. De fato, estamos fazendo algo imprescindível em termos de promoção de conhecimento, mas fica aqui uma provocação: Onde estão os homens nessa discussão? Por que em rodas de conversa que debatem a necessidade de fortalecimento do trabalho e o reconhecimento dessas produções, ainda temos a presença de um público majoritariamente feminino? Estamos falando sobre nós mesmas para nós mesmas. Precisamos furar essa bolha. A presença e participação dos homens é fundamental nesse processo”.
O encontro foi marcado pela apresentação artística de Fernanda Dahmer com a peça “O Mala do Meu Marido”, de sua própria autoria. A obra, apresentada em tempo reduzido e baseada nas fases do luto, procurou retratar “o quanto uma mulher pode se perder de si mesma até ver o buraco em que se enfiou”, segundo a autora. Com uma sensibilidade artística intensa sobre a complexidade feminina, a peça deixou o público atônito e reflexivo.
Após a apresentação, abriu-se a roda para conhecermos melhor a trajetória dessas mulheres que mobilizam a cena artística regional. O encontro reuniu performance teatral e uma conversa aberta sobre criação, além de contar com a participação de outros artistas, promovendo um espaço de escuta e troca sobre processos criativos e os desafios enfrentados por mulheres no campo artístico.
Lisi Berti, já conhecida por sua atuação marcante no teatro em Canela — através da criação, pesquisa, formação e produção —, dialogou com Fernanda, sua ex-aluna, que tem se dedicado a difundir seu trabalho autoral em espaços culturais e de pesquisa. Tudo isso foi conduzido por perguntas provocativas do público, que contou com cerca de 15 pessoas, entre professores, artistas, produtores, comunidade local, crianças e adolescentes.
Na última semana do mês de março, após uma reunião de alinhamento sobre as colunas que produziremos para o Portal Serrano neste primeiro semestre de 2026, pensei em trazer a importância das atividades culturais de base comunitária. Fomos prestigiados com esse encontro nas “alturas das montanhas bonequeiras”, que busca manter a prática onde a comunidade é convidada a participar, dialogar e se envolver no que é produzido localmente.
Furando a bolha dos eventos turísticos — que fornecem entretenimento, mas ainda pouco envolvimento comunitário —, a promoção desse encontro reforça a importância dos projetos de base. Ver a comunidade reunida, trocando experiências e mobilizando moradores tanto de Gramado quanto de Canela, destaca a valorização da cultura local e dos artistas da região.
Essas vivências promovem experiências autênticas, levantam hipóteses sobre as necessidades locais e fortalecem o trabalho coletivo e o networking. Uma cidade pode ser movida por eventos de grande porte, pois sabe-se que o turismo é parte de sua base econômica. Mas é preciso haver espaço, escuta e fomento à vida cultural da comunidade que pulsa de forma latente e molda nossa identidade.
Nem toda cachoeira, nem todo rio, nem toda trilha são turísticos.
Nem toda comunidade é turística.
Ou melhor, não apenas turística.


