Dizem que os homens não distinguem as sutis e inúmeras matizes das cores da rotina feminina, muito menos percebem as diferenças dos tons dos esmaltes no mercado atual. Quando requisitados para opinar, hesitam entre o “Chão de Estrelas” e o “Azulcrination” ou consideram o “Nunca Fui Santa” ao “Léo Mandou Flores”. E arriscam, basicamente, com ares entendidos: “Por que não um vermelho?”
Que vermelho? Há centenas de variações dessa cor, mas nas mãos daquela mulher, ele conhecia cada tom escolhido, e sabia a intenção por trás de cada decisão. Um “Vermelho Raiar da Manhã” surgia ao despertar do dia a dia, cheio de energia nas tarefas da casa. Conforme aumentava o calor, ela se abanava mais rapidamente, mantendo unidos, em leque, os dedos finos, em movimentos verticais incessantes, criando um arco-íris alaranjado que esmaecia sempre que virava as costas das mãos para secar o suor do rosto alvo emoldurado de cachos negros presos em coque. “Cena de De Sica dirigindo Sophia Loren em olival”, pensava alto, erguendo o olhar acima do jornal. Tinha o esmalte “Vermelho Ao Sugo”. “Como era gostoso sentir o sabor daqueles dedos culinários!”. Escolhido para os almoços de domingo, a cor misturava-se aos respingos do molho quente que fervia na panela e que ela lambia displicentemente para testar o sal. E ele provava junto. Vez em quando, docemente, ele lambuzava-se quando ela chegava de “Vermelho É Pavê ou Pa Comê?”! Era a certeza do pavê a la Tiramisù, polvilhado de cacau sobre o creme inglês entremeando o biscoito champanhe encharcado de licor, em dia de comemorações especiais. Por trás de seu bigode, ele sorria paternalmente ao ver as mãos dela em “Vermelho Materno” mesclando-se em cafunés entre os fios castanho-dourados das três meninas deles. A cor fundia-se em emoção. Como também emocionava quando as mãos generosas esmaltadas em “Vermelho Vêm A Mim Os Necessitados” estendiam-se aos carentes de comida, de teto e de atenção. “Mais atenção a eles do que para mim”, ele também resmungava. Mas tudo mudava quando ela vinha de “Vermelho Vinho Tinto”, empunhando delicada e elegantemente as antigas taças de cristal tcheco presenteadas no casamento deles. Ele sabia que seria noite de alegria, de casa cheia, de festejos. As mãos italianas dela falariam por si, voariam no ar por horas incansáveis para expressar o que não cabia em palavras. “In vino veritas!”, suspirava. E logo viriam as mãos em “Vermelho Zingara Rodopiante” que ele, então, segurava firmemente entre os passos de dança simulando tangos repletos de reviravoltas. Mas quando ela vinha com as mãos em concha na direção dele, prestes a segurar o seu rosto para um beijo, ele só via o “Vermelho Volúpia Fogo e Paixão” tingir-lhe a retina ao palpitar alto do coração. E às mãos da minha mãe, o meu pai se entregava, pois era perito em todas as nuances dos vermelhos dela.


