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E se as florestas ficassem cada vez mais parecidas?

Diferentes florestas podem abrigar um conjunto distinto de espécies de árvores, cada uma com suas combinações e características. Mas o que acontece quando, ao longo do tempo, essas florestas começam a ficar cada vez mais parecidas entre si?

Foi justamente essa e outras perguntas que um estudo publicado na revista científica Oikos investigou. A pesquisa, liderada pelo ecólogo Jean Marlon Freitag Kramer, pesquisador do laboratório de Ecologia Vegetal (LEVEG) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), analisou como comunidades de árvores da Mata Atlântica subtropical mudaram ao longo de uma década. O trabalho acompanhou árvores adultas e juvenis em 11 áreas florestais por aproximadamente 10 anos. Os resultados do estudo mostraram um padrão interessante: embora o número de espécies encontrado em cada área tenha mudado pouco ao longo do tempo, a composição das comunidades mudou de maneira mais consistente, com as florestas ficando mais parecidas entre si.

 

Mais do que contar o número de espécies 

A biodiversidade não é medida apenas pelo número de espécies presentes em uma dada área. Duas áreas podem ter exatamente a mesma quantidade de espécies e, ainda assim, serem muito diferentes entre si. Por isso, o estudo avaliou também a chamada diversidade beta, que representa as diferenças na composição de espécies entre diferentes áreas ou ao longo do tempo. E os pesquisadores observaram uma diminuição da diversidade beta ao longo do tempo, indicando que as diferentes florestas passaram a apresentar conjuntos de espécies mais semelhantes entre si, um processo conhecido pelos ecólogos como homogeneização biótica. 

“É como se diferentes florestas, que antes tinham identidades próprias, começassem a ficar mais parecidas entre si. Quando olhamos apenas para o número de espécies, essa mudança pode passar despercebida. Mas, quando analisamos quais espécies estão presentes em cada local, conseguimos perceber uma outra dimensão de mudança da biodiversidade”, explica Jean M. Freitag Kramer.

 

O valor de acompanhar a floresta por muitos anos

Para identificar esse e outros tipos de mudanças nos ecossistemas naturais, não basta observar os ecossistemas uma única vez. É necessário voltar ao mesmo local repetidamente e acompanhar as mudanças ao longo do tempo. Parte importante desse esforço vem das parcelas permanentes mantidas pelo Laboratório de Ecologia Vegetal (LEVEG) da UFRGS no Pró-Mata da PUCRS, em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, sob coordenação da Prof. Dra. Sandra Cristina Müller. Essas parcelas fazem parte de uma estrutura de monitoramento que permite retornar às mesmas áreas e acompanhar a dinâmica da diversidade e composição das comunidades vegetais. Vale ressaltar que três das 11 áreas analisadas no estudo se encontram na RPPN Pró-Mata da PUCRS. 

“As parcelas permanentes são fundamentais para que possamos acompanhar e avaliar como as florestas mudam ao longo dos anos. Com isso conseguimos entender não apenas quantas espécies existem, mas quais espécies estão desaparecendo, quais estão chegando e como a composição de espécies dessas florestas está mudando ao longo do tempo, bem como outras questões”, destaca Jean M. Freitag Kramer.

 

Biodiversidade também é sobre como a floresta funciona 

Além de avaliar o número e a composição de espécies, os pesquisadores também analisaram características das árvores, conhecidas como atributos funcionais. Características relacionadas as folhas, como área foliar, ou as sementes, como massa da semente, ou até a madeira das árvores, como densidade da madeira, podem fornecer informações sobre as estratégias ecológicas das espécies e sobre como as mudanças na composição das florestas podem afetar seu funcionamento. 

“Olhar apenas para o número de espécies é como olhar para apenas uma parte de toda a biodiversidade que uma floresta pode abrigar. Quando analisamos a composição e as características das espécies por meio de atributos funcionais, conseguimos entender melhor quais características estão mudando e as consequências dessas mudanças para o funcionamento dos ecossistemas”, explica Jean M. Freitag Kramer. 

Os resultados da pesquisa reforçam, portanto, a importância de manter programas de monitoramento de longo prazo. Mudanças na biodiversidade podem ser sutis e não necessariamente aparecer quando avaliamos apenas o número de espécies. Monitorar a biodiversidade ao longo dos anos permite identificar transformações na identidade das espécies e compreender melhor os efeitos das alterações ambientais e climáticas sobre as florestas da Mata Atlântica. 

O artigo completo pode ser acessado em:

https://nsojournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/oik.10961

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