Quantas vezes você viu esta cena em um restaurante: duas, três ou mesmo quatro pessoas em uma mesa e cada uma dedicada a olhar para seu celular. Muitas vezes até crianças silenciosas ‘graças’ a seu dispositivo eletrônico. Também certamente já foi a um show onde as pessoas tiveram que assistir em casa, já que passaram todo o evento buscando a melhor posição para a filmagem. E tenho certeza de que conhece mais de uma pessoa que faz exercícios ouvindo podcasts para ‘aproveitar o tempo’. Onde—e como—nos convenceram a fazer duas, três e até mais coisas ao mesmo tempo com a desculpa de uma pretensa capacidade multitarefa?
Para quem acredita nisso, trago más notícias: O cérebro humano não faz duas coisas que exigem raciocínio ao mesmo tempo; ele apenas alterna rapidamente a atenção entre elas. Segundo pesquisas da American Psychological Association, essa troca constante gera perda de produtividade de até 40%, aumenta os erros e causa esgotamento mental, e isso já se sabe há algum tempo. Estudo publicado no periódico Nature em outubro de 2020, demonstrou que falhas de memória estão ligadas a lapsos momentâneos de atenção e ao hábito de realizar multitarefa com mídias digitais. Mostrou também que o hábito crônico de consumir múltiplos conteúdos digitais ao mesmo tempo aumenta a propensão do indivíduo a sofrer falhas de atenção e ter esquecimentos. Existem exceções? Sim. Atividades automáticas: é possível caminhar e ouvir música ou dobrar roupas enquanto assiste à TV. No mais, enquanto queremos ganhar tempo estamos, na verdade, desperdiçando-o.
E, talvez também por isso, a ansiedade encontre terreno tão fértil nestes tempos por aqui: uma mente treinada para mudar de assunto a cada vinte segundos acaba acreditando que a vida também precisa correr nessa velocidade.
Segundo a pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, em 2004, uma pessoa conseguia se concentrar em uma única tela por dois minutos e meio. Em 2016, esse tempo caiu para 47 segundos, o que representa uma redução de 69% em 12 anos.
“A capacidade de prestar atenção é a forma mais pura e rara de generosidade.”, escreveu a filósofa Simone Weil, não agora, onde notificações disputam, a todo momento, um pouco da nossa atenção, mas em 1942, quando ela já falava do que é considerada uma ética da atenção. Para ela, mais do que uma concentração em sentido técnico ou um esforço intelectual, a atenção é uma disponibilidade para o outro, seja nossa parceria da janta, seja um artista no palco.
E assim surge uma pergunta importante: se a atenção revela aquilo que valorizamos, para onde está indo a nossa? Vamos continuar, passivamente, no jogo que nos colocaram quando atenção virou moeda de negócios? Ou vamos conseguir nos rebelar e tomar nossas próprias decisões de onde investir esse recurso precioso?
A ciência afirma que a tendência de fazer várias coisas ao mesmo tempo dificilmente vai se reverter, mas treinar o foco é possível, e a solução mais eficaz apontada pela neurociência é simples: ler mais, e em papel.
E para nossa convivência, para a nossa conexão pessoal, para as trocas humanas, haverá tempo de recuperar a presença?
Para saber mais:
Sobre multitarefa:
https://blog.cognifit.com/how-multitasking-affects-productivity/
Falhas de memória
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2870-z
Simone Weil


