Recentemente entrevistada, a pesquisadora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS Guendalina Turcato Oliveira, contou que orientou o pesquisador Cristiano Hentges, dentro do Programa de Pós-Graduação do Mestrado Acadêmico em Ecologia e Evolução da Biodiversidade. A pesquisa foi sobre o impacto de uma formulação comercial de herbicida à base de glifosato sobre girinos da espécie Boana faber, em condições controladas de laboratório. Outros estudos estão sendo desenvolvidos com diferentes herbicidas e suas misturas com glifosato.
No que estas pesquisas podem interessar à sociedade em geral? De acordo com a professora, é fundamental promover o debate sobre o tema da conservação e o uso sustentável dos recursos naturais para a conscientização da sociedade, quanto ao impacto que a ação humana vem causando ao meio ambiente. Atividades humanas, direta ou indiretamente, tornaram 41% das espécies de anfíbios do planeta sujeitas a alguma ameaça de extinção. Esta crise é decorrente da ação de diversos fatores, incluindo a fragmentação e degradação dos habitats, principalmente para fins agrícolas, e a exposição a contaminantes derivados destas atividades. A natureza dos anfíbios e o seu modo de vida tanto na água, quanto na terra, os torna especialmente sujeitos a esses estresses ambientais.
“O Brasil é o país mais diverso neste grupo, o de anfíbios, e nas últimas décadas tem se constatado que este grupo passa por um processo de extinção em massa, justamente o grupo que tem uma relevância ecológica muito grande”, conta a professora, que vem desenvolvendo pesquisas, desde 2006, no Centro de Conservação Pró Mata, em São Francisco de Paula/RS.
A pesquisa coordenada por Guendalina pode avaliar os efeitos sobre o balanço oxidativo, metabolismo e índices de condição corporal, devidos a diferentes níveis de exposição a uma formulação comercial de herbicida à base de glifosato, na espécie popularmente conhecida como sapo-martelo (Boana faber), um anuro da família Hylidae, que habita áreas de floresta próximas a riachos e banhados, principalmente na Mata Atlântica, onde os machos constroem ninhos e cantam para atrair as fêmeas. Cabe reforçar que esta metodologia da pesquisa é utilizada como bioindicadores para análise da qualidade ambiental e monitoramento.
“O conjunto de biomarcadores analisados mostrou que esse herbicida pode causar alterações nas defesas antioxidantes, no metabolismo e, consequentemente, nos parâmetros de condição corporal de girinos, o que pode comprometer o tempo de desenvolvimento da espécie e, possivelmente a sua aptidão”, completa a professora e pesquisadora. Ela também afirma que a baixa mortalidade observada, dos animais, durante o cultivo em laboratório, reforça ainda mais a sugestão para que esses animais sejam utilizados como indicadores de qualidade ambiental deste bioma. Os anfíbios são uma espécie de sentinelas da saúde ambiental, atuando como os importantes bioindicadores do planeta. Por serem extremamente sensíveis a alterações no ecossistema, sua presença ou ausência indica rapidamente se um ambiente está saudável e equilibrado ou em processo de degradação.
A docente Guendalina atua na área de Fisiologia da Conservação, com ênfase em Metabolismo e Endocrinologia, e nas temáticas de metabolismo energético, estresse oxidativo, variações sazonais, cultivo experimental, toxicologia, dietas e estresse, principalmente em Crustáceos, Insetos, Peixes, Anfíbios e Répteis. A professora também coordena o Laboratório de Fisiologia da Conservação, em que são desenvolvidas diversas pesquisas na área.
“As pesquisas permitem que possamos nos aprofundar neste tema sobre herbicidas e sua ação em organismos vivos. Precisamos valorar aquilo que a ciência está nos dando como resultado para uma produção mais limpa de alimentos, para um melhor uso da terra e uma melhor relação do ser humano com o meio ambiente. A ciência tem que ser ouvida pela sociedade, existem contribuições reais”, conclui Guendalina Oliveira.


