No âmbito da vida escolar, sempre sonhei em vivenciar uma escola comunitária, semelhante àquelas em que estudei na infância. Ambientes onde a comunidade – entendida aqui não apenas como o corpo docente e os alunos, mas também como pais, mães, funcionários e vizinhos, se envolve voluntariamente para suprir as demandas da instituição, movida pelo senso de pertencimento.
Nos últimos anos, recuei e parei para refletir um pouco sobre o tanto de esforço que dedico a projetos voluntários. Cheguei a acreditar, de forma limitante, que minha dedicação não fazia diferença em certos ambientes, uma frustração alimentada pelo desgaste de trabalhar com pessoas que recebem muito e reconhecem pouco. Isso me minou e me fez desacreditar em algo que sempre me deu prazer: doar parte do meu tempo a causas sem retorno financeiro, mas ricas em afeto, sorrisos compartilhados e engajamento.
Durante este mês, contudo, participei do mutirão de reforma do parquinho da Escola de Educação Infantil Ítala Reis, uma experiência que tem me ajudado a curar algumas dessas crenças. Ali, percebi que meu trabalho importa, pois o espaço valoriza quem se dispõe a ajudar. O reconhecimento de uma doação é uma das trocas mais bonitas que existem, porque quando nos doamos, fazemos de coração aberto. Deixamos na escola um pouco da nossa força de construção e reconstrução, entendendo o valor dessa partilha. Hoje compreendo melhor quais espaços e pessoas merecem meu propósito e aprendi a quem devo direcionar meu afeto.
Ao mesmo tempo em que busco enaltecer a importância dessa mobilização de vontades em torno do bem comum, parece-me necessário refletir sobre a ausência do município na solução desses problemas estruturais. Algumas escolas de Canela não se sentem ouvidas em relação às suas demandas. Muitas vezes, a convocação para um mutirão comunitário é mais do que um pedido de união coletiva: é a única esperança que resta para que ocorram mudanças concretas na estrutura física das instituições.
Não é fácil reconstruir um parquinho que atenda às diretrizes pedagógicas da escola sem recursos para a mão de obra. A única solução que resta aos gestores é convocar a comunidade. A mobilização comunitária é fundamental como prática de cidadania, sem dúvida. No entanto, o engajamento dos moradores não deve servir de pretexto para que o poder público retenha o orçamento que deveria chegar de direito a essas escolas. São reflexões que surgem como forma de incógnitas aos pais de escolas públicas, que ao mesmo tempo que se envolvem também se questionam das limitas capacidades de algumas escolas. Não nos furtemos às críticas pois essas também nos servem como forma de crescimento: individual e coletivo.
É domingo e o sol está lindo. A música que toca no rádio agora é de Michael Jackson (Billie Jean). Fui ao cinema ontem e uma das mensagens mais bonitas que o filme me transmitiu foi a de que, embora as dificuldades sejam sempre muitas, o essencial é saber onde e quando colocar amor e dedicação no que fazemos. Afinal, é isso o que deixamos para o mundo e é assim que tocamos os outros.
Ana Oliveira é Agente Territorial pelo Ministério da Cultura no PNCC, Programa Nacional dos Comitês de Cultura (PNCC) que fortalece o acesso às políticas públicas culturais em todo o país por meio da atuação em rede, da escuta dos territórios e da valorização das expressões culturais locais. A iniciativa busca aproximar comunidades, agentes culturais e instituições, promovendo participação social, formação e articulação cultural em diferentes realidades brasileiras. Os agentes territoriais de cultura e os comitês de cultura compõem a rede de atuação do PNCC em todo território nacional. Nos territórios, os agentes territoriais de cultura atuam como pontes entre as comunidades e as políticas culturais, formando redes, compartilhando informações e incentivando a participação da população nas ações culturais. Sua atuação contribui para ampliar o acesso à cultura, fortalecer iniciativas locais e reconhecer a diversidade cultural presente em cada território.
Mutirão de reforma da pracinha da Ítala Reis – Foto: Arquivo


