É isso mesmo: eu não quero mudar o mundo. E, para uma pessoa que trabalha com inovação e sustentabilidade, isso pode parecer muito estranho. E foi, de fato, de forma surpreendente que recebi essa ‘insight-decisão’, como vou chamá-la. Mas eu posso explicar.
Não é que o mundo não precise de mudanças, bem pelo contrário. Não é que a inovação não provoque mudanças, já que, na verdade, ela nasce para isso. E sobre a necessidade de termos uma ação mais sustentável nem é necessário falar.
Mas tem duas grandes questões sobre as quais refleti, exatamente a partir da minha experiência nessas áreas, e que vou tratar aqui. A primeira é que “mudar o mundo” é algo claramente grande demais. E, assim, uma tarefa árdua e pesada demais para uma pessoa. E eu não tenho—ou tinha—a pretensão de fazer isso sozinha, mas quando tomamos essa tarefa para nós, quando esse “eu quero mudar o mundo” passa a ser a tradução do nosso propósito, fica algo impossível de ser realizado. E, quando é assim, quando a meta é inalcançável, ficamos como ratos correndo na esteira de um laboratório: nunca vamos ir pra frente de verdade. Além de não enxergarmos uma luz no fim do túnel, a pior consequência disso é de não nos sentirmos capazes de realizar algo e, no limite, essa frustração pode virar até doença.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental no mundo, sendo ansiedade e depressão as condições mais comuns. O Brasil é reconhecidamente um dos mais ansiosos do mundo, com cerca de 9,3% da população—aproximadamente 18,6 milhões de brasileiros—com algum tipo de quadro ansioso. E já temos o desdobramento moderno desse problema: a ansiedade climática, também chamada de ecoansiedade, que é o medo crônico da catástrofe ambiental causada pelas mudanças climáticas. Uma pesquisa global de 2021 publicada na Lancet Planetary Health revelou que 60% das pessoas entre 16 e 25 anos relataram estar “muito preocupadas” com as mudanças climáticas, e quase metade afirmou que essa preocupação afeta negativamente seu funcionamento diário. Hoje esse fenômeno se tornou um problema de saúde mental concreto, especialmente para as gerações mais jovens que enfrentam um futuro ecológico incerto. Ou seja: temos um grande problema, mas ele é da sociedade e talvez seja uma distorção transformá-lo, em alguma medida, em um projeto individual.
A outra grande questão que trago é sobre humildade: a melhor visão sobre esse “mundo melhor” será realmente a minha? O mundo é um conjunto de sistemas complexos interconectados: sociais, econômicos, ambientais…Sistemas que não foram construídos por uma única pessoa e que, portanto, não podem se reorganizar a partir de uma única vontade, por mais bem intencionada que ela seja. Dizendo de uma forma mais direta: o mundo não é um objeto único à espera de conserto.
Com isto não quero, de forma alguma, dizer que joguei a toalha. Longe disso, quero estar mais leve para que minhas ações tenham ainda mais efeito. E, para isso, começo focando em mudar a mim mesma e evoluir, o que, por si só, já é trabalho suficiente. E espero que a partir da minha mudança, assim como a de cada pessoa, possa o mundo ser, pelo menos, mais verdadeiro. E, com sorte, cada dia melhor.
Eu não quero mudar o mundo. E isso não é uma recusa, mas apenas a humildade de abandonar a ilusão de controle em benefício da ação possível que me cabe neste tempo. Vamos junt@s?
Para saber mais:
Pesquisa global publicada na Lancet Planetary Health:
https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196(21)00278-3/fulltext
Ecoansiedade: o novo normal?
https://www.scielo.br/j/trends/a/HgRrtKV59Y7JqfmWKG97LBb/?lang=en
Como lidar com o medo de catástrofes ambientais?


