Reverencio Sebastião Salgado, sempre político, ao lado de quem denuncia. Por que clicamos tal imagem? O ponto de vista sempre depende da vista de quem olha e decide o que registrar. Seja em um filme, seja em uma foto. Quero me postar atrás da polícia ou junto de quem protesta?
No cinema – arte criada após a fotografia, e a partir dela – é igual. Por que filmar uma história?
Da meia dúzia de filmes que vi e que concorreram ao Oscar, o que achei pior é Marty Supreme. Eu gosto muito da atuação do ator-bob dylan, mas não justificaria 9 indicações. Achei péssimo fazerem um filme sobre um personagem tão escroto, mas hoje me caiu uma ficha.
Nosso cineclube está realizando no Cine Magnólia um ciclo de exibições, especialmente dos que disputam Melhor Filme junto com O Agente Secreto (aliás, é o próximo). Ao final da sessão de Sonhos de Trem fomos até o bar seguir falando da obra com belíssima fotografia – de um brasileiro que será oscarizado, palpito. O barman disse gostar muito dos longas de super heróis e logo emendou “é por isso que sou barman e não entendo de cinema”, arrancando risadas de todos. E, na sequência, perguntou: alguém sabe dizer se existe algum filme em que, no final, o mal vence?
Nós nos olhamos e, na hora, não soubemos o que dizer. No momento me pareceu uma pergunta meio boba, típica de quem acompanha o estilo que ele curte. Depois seguimos o papo e não pensamos mais na questão. Só que, como anunciei antes, me caiu a bolinha. Ponto pro Marty.
O filme de fato não é lá grande coisa. É um roteiro original, baseado na história de vida de Marty Reisman, jogador novaiorquino de tênis de mesa de meados dos 1950 em diante. O verdadeiro Marty era malandro e bonachão, mas não era criminoso. Já o personagem criado – sim, inventado, ficando claro que não se trata de uma cinebiografia, apenas de uma inspiração – foi levado a extremos, mais do que apenas um antiherói em busca de aventuras.
Isso nos traz de volta ao desafio lançado pelo barman. O norte americano, obviamente, teria que vencer no final. E contra um chinês. Claro, é um filme de Hollywood, visando ao Oscar. Ainda que responsável por graves acidentes, estelionatos, traumas e outras situações pesadas, como algumas mortes, é ele quem é reverenciado antes dos créditos de encerramento da obra. Em êxtase, comemora que não é o pai da criança, como já havia afirmado, pois sempre goza fora. Ele é como o supremeacista retratado no genial filme concorrente Uma batalha após a outra. São os estadunidenses que se julgam insuperáveis e, sim, no final quase sempre o mal vence.
É, vão acabar fazendo uma obra premiado sobre ele. O fracassado que tem certeza que é vencedor. Na vida real, infelizmente, tem sido assim. E parte do mundo aplaude.
Eu esperava que a escolha do roteirista e diretor Josh Safdie passasse pela vontade de provocar e fazer refletir sobre esta problemática. Que, infelizmente, a arte imita a vida e estamos em maus lençóis. Mas li sobre a briga com seu irmão cineasta e a própria disputa entre eles deixa claro: o mal segue na frente.


