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Izaias Reginatto

Meus Dois Centavos sobre o Filme do Bolsonaro e os Vencedores de Cannes 2026

Olá, 

Nas últimas semanas que passaram, o cinema nacional foi marcado pelo burburinho do escândalo envolvendo a solicitação de dinheiro que Flávio Bolsonaro fez para o infame banqueiro Daniel Vorcaro para “fechar as contas” da cinebiografia de seu pai, chamada “Dark Horse”. Em meio aos vazamentos de áudio e conversas que movimentaram o mundo político, foi também vazado o roteiro da obra, assim como tivemos o primeiro trailer divulgado. E é sobre isso que vou começar a coluna.  Walter Benjamin, em seu ótimo ensaio chamado “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, debate conceitos de politização da arte e estetização da política, e como ambos suprem o espaço deixado pela destruição causada pela tecnologia na “aura” da arte. Aura, nessa ideia de Benjamin, fala sobre a autenticidade e a “presença” única que uma obra de arte tem em determinado espaço e tempo. E o cinema é justamente uma expressão disso, sendo uma arte que possui seu valor determinado pela reprodução.

Ao mesmo tempo que Benjamin via o cinema como importante ferramenta de transformação social, já avisava que o “resultado lógico do fascismo é a introdução da estética na vida política”.  O roteiro da cinebiografia é assinado por Cyrus Nowrasteh e seu filho Mark, com argumento escrito pelo ex ator da Malhação e hoje deputado Mário Frias, e transforma a trajetória política de Bolsonaro em uma epopeia messiânica que opta por misturar ficção e realidade, além de usar várias alegorias para representar seus algozes políticos. Destaque para os personagens secundários que representam figuras reais. A deputada gaúcha Maria do Rosário foi transformada em “Glória de Rosales”, que é retratada como uma mulher descontrolada que ataca o protagonista injustamente. Adélio Bispo, autor da facada em Bolsonaro em 2018, virou “Aurélio Barba”. No roteiro, é apresentado como militante de esquerda radical, e que diz ter abandonado os movimentos marxistas “porque eles usavam drogas demais”. Já nos personagens fictícios, temos o mandante da facada sendo o traficante “Cicatriz”, que teria sido preso por Bolsonaro nos anos 80 e resolve se vingar agora.

O auge do roteiro é quando uma mulher misteriosa de nome Dolores se aproxima do protagonista e diz ter sido “enviada por Deus” e que “uma febre está chegando”. Na sequência, medicamentos para Bolsonaro, que não hesita em tomá-los em um brinde. O simbolismo dessa cena é claro: a facada era um destino sagrado e a sua sobrevivência foi um milagre divino.  Já o trailer nos leva à pergunta de quanto de verba foi desviado da execução e pós produção do projeto. O filme tem a estética e fotografia de uma novela da Record, além de atuações totalmente escrachadas. 

A escolha de Jim Caviezel, que já interpretou Jesus Cristo no ótimo “A Paixão de Cristo”, para dar vida a Bolsonaro não foi em vão. O filme não é uma cinebiografia política, é uma via crúcis do protagonista que é apresentado como “outsider” e que luta “contra o sistema”.  É a produção mais cara da história do cinema brasileiro, tendo custado o triplo de “Eu Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. E ainda custou mais caro que alguns vencedores recentes do Oscar de Melhor Filme, como “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, de 2022, dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert.  

Agora falando sobre cinema de qualidade, o 79° Festival de Cannes encerrou dia 23 de maio. Considerado um dos mais fracos festivais dos anos recentes, com grandes diretores tendo filmes que receberam comentários mistos da crítica, como “Sheep in the Box” de Hirokazu Koreeda e “Parallel Tales” de Asghar Farhadi. 

Abaixo, a lista dos vencedores dos principais prêmios desse ano. 

  • Palma De Ouro: “Fjord”, de Cristian Mungiu; 
  • Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev.
  • Prêmio do Júri: “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach.
  • Melhor Diretor: Teve um empate entre Pawel Pawlikoswki, por Fatherland e Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra. 

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