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Coluna da Gabi

Gabriela Ferreira

O sangue dos outros

Vivemos tempos de contar. Curtidas, seguidores, comentários, compartilhamentos e até ‘viralizadas’. O mundo das redes sociais expõe vidas e rotinas, às vezes muito mais do que seria saudável e necessário. Mesmo quando falamos em ajudar pessoas e em filantropia, os números aparecem como importantes elementos de reconhecimento simbólico e de promoção das ações realizadas. E tudo certo: se a intenção é mobilizar pelo exemplo, até a solidariedade depende de visibilidade.

Nesse contexto, a doação de sangue parece algo estranho. Não há retorno financeiro; raramente há reconhecimento público e, na grande maioria das vezes, nunca saberemos quem será beneficiado. Com a doação não teremos a oportunidade de testemunhar o resultado da nossa ação e, mesmo assim, milhares de pessoas dedicam alguns minutos da sua vida para oferecer algo que não pode ser fabricado em laboratório nem substituído por nenhuma tecnologia.

O Brasil registra cerca de 3,3 milhões de doações anuais, com uma taxa de 14 a 18 doadores por mil habitantes e cerca de 1,5% da população. No mundo, são registradas aproximadamente 120 milhões de doações por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. São números grandes, mas não suficientes para relaxar na busca constante por pessoas doadoras.

Enquanto no Brasil 38% dos doadores o fazem apenas para amigos ou familiares, para mais de 60% das pessoas doar sangue é ajudar alguém que nunca conheceremos. E isso, de certa forma, contrasta com uma sociedade orientada pela troca, pelo benefício e pela visibilidade. O sangue, independente de profissão, renda, religião, origem ou ideologia, é o mesmo. Nem sempre o mesmo tipo, mas, de forma geral, o sangue mais nos une do que nos diferencia.

Na França dos anos 40, invadida pela Alemanha, Simone de Beauvoir, no romance ‘O sangue dos outros’, escreve—e reflete—sobre o impacto que nossas ações podem ter sobre as pessoas ao nosso redor e o profundo senso de responsabilidade que acompanha as decisões de cada pessoa. Não precisamos estar em guerra para concluir que, no fim das contas, a doação de sangue, para quem pode fazê-la, simboliza reconhecer que a vida do outro possui valor, mesmo quando esse outro é um desconhecido.

Vivemos em uma sociedade que valoriza a autonomia. Somos estimulados, cada vez mais, a acreditar que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual e que cada pessoa é responsável por construir seu próprio caminho. Embora exista algo de verdade nessa ideia, ela, além de não considerar contexto, nos faz esquecer algo fundamental: somos todos interdependentes.

Talvez por isso a campanha do Junho Vermelho tenha uma importância que vai além da necessidade de manter os estoques dos hemocentros abastecidos: ela nos convida a refletir sobre o tipo de sociedade que temos e queremos. Uma sociedade saudável depende, para além de números—e de sangue—, da capacidade de seus membros reconhecerem que o destino coletivo e o destino individual são, em alguma medida, conectados e, portanto, dependentes entre si.

Eu sou doadora de sangue—assim como de medula óssea e de órgãos. E você, vem com a gente?

Para saber mais sobre doação de sangue: 

https://www.rs.gov.br/carta-de-servicos/servicos?servico=601

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