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CAPTURA – Magda Martins Costa

Saio da reunião com os ecos das discussões a reverberar em mim. Onde estava minha cabeça quando aceitei vir a Porto Alegre em pleno janeiro? O sol escaldante torra meus miolos. Tropeço. Merda. Estou distraída. Não suporto o calor. Esse carro não anda, vai seu molenga, quero atravessar a rua. Preciso da sombra de uma árvore. Que pórtico é esse? A entrada não era assim. Aqui tinha grama, agora tem bloquetos de concreto. Parque Harmonia, está escrito no letreiro. É o mesmo parque? Há quanto tempo não venho aqui? Cadê a grama? As árvores? Os pássaros? Só tem piso asfáltico, estacionamento. E muito calor. A laje queima  meus pés. Quem mandou sair com solado fino? Minha pele arde. Não enxergo direito. Tá dificil de abrir os olhos. A luminosidade fere. Falta verde para descansar o olhar. É muita devastação. Minha cabeça dói. Minha alma lateja. Será que é fome? Tinha uma churrascaria. Como era mesmo o nome? A gente chamava de Churrascaria do Harmonia mas acho que o nome era outro. O Gui tinha três anos e pedia carne com sanguinho para o garçom. Hoje é vegetariano.  Tem o direito de ser o que quiser ser. E o parque, os animais, a natureza,  quais são os seus direitos? Podem ser aviltados, destruídos? Trocados por concreto?

Abro a porta. O chão dança sob os meus pés, minha barriga remexe. Onde é o banheiro? As palavras não saem. O gaúcho com a bandeja na mão, aponta para uma mesa. A brisa do ar central arrepia os pelos dos meus braços. Melhor sentar. Acalmar. Resfriar. – Por gentileza, uma água com gás. Bem gelada. Sem gelo e sem limão. A água desce como uma Skol, redondinha, as borbulhas fazendo cócegas na garganta. Na janela em frente, um horizonte de asfalto, a vista pesa. Inverto o olhar, rememoro a janela aberta para o verde. Na rua, crianças correm próximas ao galpão. Barulhentas, ainda ouço suas risadas. O menino, sentado na soleira da porta, é puro silêncio, observa o grupo, sério, olhar verde de mata. O clic da câmera puxa meu olhar para a mesa ao lado. O careca brinca com a Laika, ora aponta para a companheira, ora para o entorno. Ultrapassa a janela e captura o momento da infância. 

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