Uma operação da Brigada Militar contra famílias Kaingang que vendiam artesanato ao lado da Catedral de Pedra, em Canela, na Serra Gaúcha, resultou em denúncias de violência, racismo e abuso de autoridade. Os indígenas que foram alvo da ação vivem na comunidade Pón Nónh Móg, em Farroupilha, e viajam até Canela para comercializar seus produtos. O cacique Alexsander Ribeiro e o comerciante Silvério Ribeiro, que foi agredido, se reuniram com a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) para articular ações e denunciar o ocorrido.
“São relatos extremamente graves de racismo contra os indígenas em diversos âmbitos na cidade de Canela. Irei levar o assunto à Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia, assim como dialogar com o Ministério Público Federal e com o Ministério dos Povos Indígenas para que medidas sejam tomadas. Os indígenas querem ser tratados com dignidade, respeito e ter um local adequado para comercializar seus produtos. Me parece ser o mínimo que se pode fazer por eles”, afirmou Luciana Genro após o encontro.
Além da agressão, que resultou em uma ruptura das fibras do tendão do cotovelo de Silvério, os indígenas levaram à deputada os problemas estruturais pelos quais passam. A comunidade, composta por 50 famílias, vive em uma área de cerca de 700 m² em Farroupilha, sem espaço para agricultura, e tem direito a sete barraquinhas no comércio de rua em Canela, ao lado da Catedral de Pedra, para comercializar artesanato. No entanto, devido a dificuldades de acesso à matéria-prima, eles também vendem outros tipos de produtos, o que seria o motivo da fiscalização e apreensão das mercadorias.
Por isso, os indígenas, além de denunciarem a violência policial, também pedem que seja construído um espaço onde possam comercializar seus produtos com dignidade e visibilidade na cidade de Canela, conhecida pelo turismo. O assunto inclusive foi tema de reunião entre a comunidade, o Ministério Público Federal e a Prefeitura de Canela no dia 6 de agosto. Mesmo assim, no dia 27, houve a operação truculenta da Brigada Militar contra os comerciantes, o que tem se tornado recorrente desde o início deste ano, quando uma nova gestão assumiu a prefeitura de Canela e o secretário Adriel Buss foi nomeado na pasta de Trânsito, Transporte e Fiscalização.
“A fiscalização pediu para entregar os produtos e eu disse que ia guardar, coloquei no carro e eles seguiram insistindo, dizendo que iam confiscar. Começaram a me xingar, chamar os indígenas de insetos e dizer que a gente sujava a imagem de Canela”, relatou Silvério, ainda muito abalado e com o braço imobilizado. Vídeos gravados na ocasião comprovam que a ação policial foi desproporcional: diversos agentes fortemente armados atuaram contra quatro ou cinco indígenas que comercializavam seus produtos. Silvério foi imobilizado com extrema violência, recebeu socos, chutes e joelhadas, teve o braço deslocado e foi algemado.
Silvério foi levado ao hospital, onde não foram realizados exames em seu braço, apenas fornecido um medicamento, e então foi conduzido à delegacia de Gramado algemado, mesmo relatando diversas vezes estar com dor no braço, sendo registrado um boletim de ocorrência contra ele por desacato. Os policiais teriam continuado a ofender os indígenas e não foi fornecido a Silvério a cópia do seu B.O por lesão corporal, fazendo com que ele precisasse registrar novamente em Canela.
Mas esta situação não é isolada, e sim faz parte de um problema sistêmico em Canela. “A fiscalização encrenca com termos produtos não artesanais, mas não é escolha nossa, é por necessidade. Somos seres humanos e queremos nosso espaço para vender em paz. São 50 famílias que vivem do comércio”, relatou o cacique Alexsander.
A liderança kaingang Moisés, militante do PSOL, articulou a reunião com Luciana Genro, ao lado do também militante Antonio Neto, e expressou a preocupação com a falta de políticas públicas para indígenas em Canela. “Será que os empresários valem mais que os indígenas para eles? Por que não os deixam comercializar com dignidade?”, questionou. A pedido de Luciana Genro, o assunto será abordado na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, com depoimentos de Alexsander e Silvério.