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 A moldura de lucro – Eliza Schwantz

No meio de um salão imenso, cercado por paredes de concreto e grandes janelas de vidro que vão do chão ao teto, não há móveis, não há nada. O que há é água. Um rio escuro e liso que parece não ter fim, mas que termina repentinamente onde o cimento aparece.

Lá no meio, dois homens remam em uma canoa de madeira. Eles remam devagar, com a dignidade de quem conhece cada curva daquela correnteza. À primeira vista, alguém poderia dizer que o rio invadiu o prédio. Que a água tomou o lugar das paredes e transformou o salão em correnteza. Mas, se olhar bem, vai perceber o absurdo: o rio não transbordou e invadiu o prédio. Ele já estava ali muito antes de qualquer tijolo existir.

O homem branco, movido por uma ganância que não conhece limites, decidiu que o progresso predatório era mais importante do que qualquer forma de vida. Ele chegou com as suas máquinas, ignorou o solo sagrado e ergueu colunas pesadas ao redor da correnteza. Para ele o rio era apenas um detalhe no mapa, um obstáculo que precisava ser domesticado e confinado sob toneladas de concreto da sua engenharia.

Não houve um pingo de consciência ambiental, muito menos respeito pela cultura de quem já estava ali. O luxo se ergueu sobre o que era essencial. Aqueles vidros gigantes são lâminas de um crime: cortam a alma do rio para que o proprietário do prédio possa se sentir poderoso por ter engaiolado a natureza.

Os dois indígenas na canoa sentem o peso dessa invasão, uma dor que a ciência moderna chama de solastalgia: o luto profundo por um lar que ainda existe fisicamente, mas que se tornou irreconhecível. Eles estão em casa, mas a casa agora tem teto e paredes que eles não pediram. O ambiente familiar foi violado pelo progresso, transformando o consolo da terra e da água em angústia. É a dor de ver o horizonte ser cortado por vigas de aço. Eles sabem o que o homem do dinheiro ainda não entendeu (e dificilmente entenderá um dia): muros não apagam a história de um lugar. Até o aço mais caro é incapaz de enterrar o que é sagrado. O invasor pode cercar a vida, mas nunca será parte dela.

O lucro acumulado em salas climatizadas não oferece resistência à fúria da natureza. O rio vai estraçalhar essa moldura de lucro, acabando com cada coluna de concreto e reduzindo o vidro a estilhaços inúteis. A correnteza retomará seu trajeto sobre o cadáver de cimento, arrastando os restos da ganância para o fundo, enquanto a canoa daqueles que pertencem à terra, segue o seu caminho, livre da mancha desse progresso predatório.

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