Em março do ano passado, escrevi uma coluna aqui no Portal Serrano sobre a série Adolescência, fenômeno de audiência mundial que provocou grande repercussão. Um ano depois, impactada com fatos recentes – como o estupro coletivo praticado por adolescentes no Rio de Janeiro e o assassinato do cão Orelha – decidi mudar o tema desta coluna que era para ser bem mais ameno. O motivo é que considero fundamental colocarmos no centro dos debates os comportamentos violentos, criminosos e radicalizados entre os jovens. Não bastassem os casos crescentes de feminicídio, misoginia e outras violências de gênero, a preocupação com jovens e crianças – futuros adultos que vão conduzir os rumos da humanidade – é uma discussão urgente.
Coincidentemente, nestes dias tomei conhecimento de uma pesquisa mundial que apontou que os homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) apresentam visões ainda mais conservadoras sobre os papéis de gênero na sociedade. Realizado com 23 mil pessoas, o estudo da Ipsos, em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, revelou que 31% dos jovens do sexo masculino acreditam que a esposa deve obedecer ao marido, o dobro do registrado entre os homens da Geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964). Não era para ser o contrário? E mais: 70% dos brasileiros acreditam que há um excesso de exigência para que os homens apoiem a igualdade de gênero. Confesso que fiquei pasma com os dados do levantamento.
A onda conservadora revelada pela pesquisa é multifatorial, mas é inegável a influência de conteúdos cada vez mais extremistas no ambiente digital. De um lado, temos os jovens que buscam nas redes e comunidades on-line um sentido de pertencimento – como respostas simples para suas frustrações, relacionamentos e questões de autoestima. Uma intenção que, na maioria das vezes, chega a ser ingênua, mas que a arquitetura digital pode conduzir a uma jornada de radicalização. De forma gradual, estes jovens são direcionados para conteúdos misóginos e fóruns que defendem a manutenção dos históricos privilégios masculinos. Além das questões de gênero, estes ambientes costumam ser racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos e capacitistas.
A boa notícia é que no dia em que escrevo esta coluna (17 de março) entrou em vigor o ECA Digital, uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente que vem para reforçar a proteção destes públicos na internet, incluindo não só redes sociais, como aplicativos, jogos, sites de conteúdo adulto e até streamings. Entre as principais iniciativas estão o fim da autodeclaração de idade, a vinculação das contas de menores de 16 anos aos perfis dos responsáveis legais, responsabilização das plataformas no que toca aos conteúdos inapropriados – como exploração sexual, cyberbullying e incentivo à violência – e proibição do uso de dados para direcionamento de publicidade. Também fica proibido impulsionar ou monetizar conteúdos que retratem crianças de forma erotizada ou com linguagem adulta. E o que é mais relevante: a lei ataca a arquitetura das plataformas, vetando mecanismos que induzem ao vício comportamental, como scroll infinito, desativação do autoplay (vídeos e áudios não podem ser reproduzidos automaticamente em sequência), regulação de loot boxes (caixas de recompensa pagas em jogos) e muito mais.
É um passo importante e fica aqui o convite para que você saiba mais sobre o Eca Digital e participe desse esforço coletivo que inclui famílias, educadores, instituições, governos e plataformas.


