Olá!
No domingo passado, dia 15, aconteceu a 98ª cerimônia de entrega do Oscar. É a maior premiação do cinema mundial e uma honraria anual concedida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Embora tenha havido recentemente um movimento de abertura para integrantes de fora dos Estados Unidos, o Oscar é predominantemente uma premiação americana para filmes americanos.
Poderia gastar o tempo de leitura de vocês falando sobre os filmes que mais venceram estatuetas, se alguma premiação foi justa ou esperada, ou se houve zebras. Poderia também comentar se o desastre do filme “F1” merecia estar numa premiação deste nível. Mas vou tentar fazer diferente. Vou falar sobre a categoria que tem mais importância para mim: a de Melhor Filme Internacional.
Como de costume, cinco filmes concorreram nesta categoria:
- “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, representando a Noruega.
- “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, embora seja um filme iraniano, representou a França.
- “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, representando o Brasil.
- “Sirãt”, de Oliver Laxe, representando a Espanha.
- “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, representando a Tunísia.
“Valor Sentimental” foi o grande vencedor desta categoria e é o sexto longa de ficção da filmografia de Joachim Trier. Ele já havia concorrido pelo ótimo “A Pior Pessoa do Mundo”, que está disponível no Prime Video. “Valor Sentimental”, para mim, é o melhor filme do ano, e fala sobre a relação familiar de um diretor de cinema já decadente, interpretado por Stellan Skarsgard, que retorna à sua antiga moradia na Noruega para o velório de sua ex-esposa. Lá, ele tenta se reconectar com suas duas filhas (interpretadas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas), as quais ele praticamente abandonou depois da separação. Acho que nenhuma sinopse consegue transparecer como e quanto o filme impacta e sensibiliza os espectadores, a forma como é explorado o talento artístico dos personagens em suas conexões pessoais, além de ser maravilhosamente bem interpretado, tanto que recebeu quatro indicações ao Oscar em categorias de atuação. Renate concorreu a Melhor Atriz, Inga e Elle Fanning a Melhor Atriz Coadjuvante e Stellan concorreu a Melhor Ator Coadjuvante. Sem contar a metalinguagem de ter um filme sendo feito dentro do próprio filme, o que eleva a linguagem cinematográfica apresentada.
“Foi Apenas um Acidente” não poderia ser mais atual, visto que se passa no Irã, enquanto temos a atual agressão de Israel e EUA contra o povo iraniano. O diretor Jafar Panahi já foi diversas vezes preso pelo regime iraniano e é um grande crítico da teocracia do país. E o filme tem esse tom autobiográfico, justamente por acompanhar um grupo de ex-presos políticos do regime que enfrentam o dilema moral de ir atrás de vingança contra um homem que supostamente torturou todos eles. Vou tentar não entrar em spoilers, mas os últimos trinta minutos do filme são absurdamente bons, o tom sobe para uma escala surreal e grotesca, como se fosse um grande pesadelo. Foi o vencedor da Palma d’Ouro em Cannes e, além de concorrer a Melhor Filme Internacional, Jafar foi indicado ao prêmio de Melhor Roteiro Original.
Sobre “Sirãt”, vou parafrasear o ator Jacob Elordi: não leia nada, não veja trailer. Apenas vá e assista, especialmente numa sala de cinema que tenha um bom sistema de som. E , de preferência, assista com um amigo junto, porque você vai querer conversar sobre o filme depois. Tentaram forçar uma rivalidade em torno do filme após tirarem de contexto uma entrevista do excelente diretor Oliver Laxe, em que ele disse que nós, brasileiros, votaríamos em um filme brasileiro mesmo que ele fosse “um sapato”. Na semana passada, antes da cerimônia do Oscar, o próprio Oliver admitiu que “Sirãt” não tinha chance nenhuma de premiação e que, por causa disso, estava torcendo pelo sucesso de “O Agente Secreto”, por causa do seu amigo Kleber e do Wagner Moura. “Sirãt” é uma experiência sensorial que não deixa ninguém imune ao impacto que os acontecimentos do filme causam.
“A Voz de Hind Rajab” é assustador. O longa é dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania e é talvez o filme mais aterrorizante que já vi. A obra acompanha a resposta de voluntários da Cruz Vermelha a uma chamada de emergência. A chamada foi feita por uma criança de seis anos, Hind Rajab, que, no momento em que ligava, estava presa debaixo de um carro enquanto soldados israelenses atiravam contra ela. Apesar de todos os outros filmes tratarem de temas sensíveis, nenhum vai deixar você tão arrasado emocionalmente quanto este. Pedro Almodóvar considerou esse o melhor filme de terror do ano.
E o nosso “O Agente Secreto”, do excepcional Kleber Mendonça Filho? Bom, eu imagino que dispense apresentações. Ambientado em Recife na semana de Carnaval de 1977, durante a ditadura militar no Brasil, acompanhamos Armando/Marcelo, brilhantemente interpretado por Wagner Moura, um professor universitário que está fugindo da perseguição política de um empresário ligado ao regime militar. A obra é impecável, com ambientação, cenários, fotografia, seleção de elenco e diálogos primorosos. Vejo como sendo o melhor filme brasileiro desde Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Ele já está disponível na Netflix e, se você não assistiu ainda, com certeza é uma ótima pedida. O filme é brilhante.
Um breve destaque da longa cerimônia fica para o discurso antiguerra e de liberdade ao povo palestino proferido pelo grande Javier Bardem, que apresentou os indicados e entregou o prêmio de Melhor Filme Internacional.
Abaixo, uma lista de grandes filmes que já ganharam a categoria de Melhor Filme Internacional e onde você pode assistir eles:
- “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Pedro Almodóvar, disponível no Prime Video.
- “Mar Adentro”, de Alejandro Amenábar, disponível no Mubi.
- “Amor”, de Michael Haneke, disponível no Prime Video.
- “Filho de Saul”, de László Nemes, disponível no Prime Video.
- “Parasita”, de Bong Joon-ho, disponível na Netflix.
- “Druk – Mais uma Rodada”, de Thomas Vinterberg, disponível na Netflix


