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A ira dos deuses – Natasha Freitas

Ao longe, o céu escurece, saindo de um cinza tímido para uma escuridão de promessas. Os relâmpagos começam a riscar o céu, iluminando tudo por um instante e anunciando sua presença. O brilho assusta — mas encanta. A terra parece estremecer, meus olhos se erguem em direção aos riscos nervosos no alto. Tal qual ícor, o sangue prateado dos deuses vibra no céu, anunciando um novo tempo.

Hoje, a chuva não durou muito — mas foi intensa. Agora resta o petricor: o afago da terra, a esperança de tempos melhores.

Petricor é o nome dado ao cheiro que surge da terra molhada após a chuva. O termo une petra (pedra) e ícor, o sangue místico dos deuses da mitologia grega — uma substância etérea, diferente do nosso vermelho humano. Talvez por isso esse aroma carregue algo de sagrado: ele chega depois do susto, depois do ruído, depois daquilo que pareceu grande demais.

Acredita-se que o ser humano tenha aprendido a gostar desse cheiro porque a chuva sempre significou possibilidade de germinação. Regar é sobreviver — e não falo apenas das plantas.

Gostamos de imaginar que a vida segue receitas previsíveis: estudar para conquistar um trabalho, medir ingredientes para que o bolo cresça, planejar caminhos seguros. Mas — como as tempestades — nem tudo responde à nossa vontade. Há forças externas, invisíveis e teimosas, que atravessam nossos planos com a mesma rispidez de um relâmpago.

A frustração, embora amarga, talvez seja também um tipo de chuva. Ela nos lembra das limitações, mas também revolve a terra onde algo novo pode nascer. Chorar, às vezes, é só o começo da germinação.

Talvez seja por isso que o petricor acalme. Porque, depois do medo e do clarão, ele nos envolve como um aviso silencioso de que a vida — mesmo quando assusta — ainda sabe recomeçar.

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