Acordou e logo percebeu naquele dia algo de incomum. Sonolenta ainda, não sabia bem se era uma sensação interna ou se algo estava acontecendo lá fora, mas o clima estava diferente. A primeira confirmação veio do rádio. A inflação ficara abaixo do previsto e a expectativa para os juros era de queda. A taxa de desemprego também havia caído. Estranho: excelentes notícias para o que tinha sido o fechamento do mês, na semana anterior.
Enquanto preparava o que comer ficou sabendo que o preço da cesta básica era o menor em cinco meses. Achou que poderia estar ouvindo uma emissora de outro país, mas o idioma era português bem brasileiro…Foi só morder a banana para ouvir que as frutas tinham baixado de preço. Um gole de café revelou que a safra do produto era recorde no país. Na primeira colherada de iogurte descobriu que a quadrilha responsável pela fraude do leite estava na cadeia. Achou engraçada a coincidência da sequência entre fatos e notícias.
Foi para o banho e carregou o telefone conectado na emissora de rádio: estava gostando muito das novidades. Abriu a torneira e o apresentador anunciou que os reservatórios de água do país estavam com volume de água recuperado.
Riu, mas começou a ficar intrigada. Até o final do banho tinha ocorrido uma chuva histórica no sertão nordestino e as hidrelétricas estavam produzindo excedentes de energia em todas as regiões do Brasil. Enquanto se secava, a produtividade do algodão tupiniquim duplicava. Realmente, aquele não era um dia comum.
À medida que se vestia os responsáveis pelo trabalho escravo em grandes redes de varejo de vestuário iam sendo presos. Para cada peça de roupa que colocava, o locutor descrevia uma empresa. Agora o frio na barriga era constante. O tempo de secar o cabelo foi suficiente para que a violência contra as mulheres diminuísse. Cinco pontos percentuais apenas, mas seguia uma tendência decrescente. Animada com o desenrolar dos acontecimentos, resolveu caprichar na maquiagem. Foi quando o trabalho autônomo garantiu o sustento de centenas de mulheres nas periferias das principais capitais brasileiras, de acordo com a repórter do jornal da manhã. O setor? Indústria da beleza, claro.
Saindo de casa voou escada abaixo até a garagem, para perder o mínimo possível de notícias e verificar se o rádio do carro estava “normal”. Estava.
Normalmente comprometido com aquilo que a estava deixando maravilhada e assustada naquela manhã. Ao girar a chave, a confirmação: o preço do petróleo tivera uma redução de 17% nas refinarias. Seguia para o trabalho quando, ao avistar aquela mesma senhora que todos os dias pedia dinheiro sinaleira de sempre, o número de sem-teto havia sido reduzido em 32%, de acordo com a entrevista do secretário de habitação da cidade. Ao pegar o panfleto oferecido por um menino trabalhador das esquinas, ouviu que o número de crianças fora da escola caía a cada mês. Foi nesse momento que não teve mais dúvidas: ligou avisando que não participaria da reunião da manhã e desviou seu caminho. Chegando ao aeroporto, foi ao primeiro balcão de companhia aérea que encontrou.
– Por favor, um bilhete no próximo voo. Para Brasília.
Para saber mais:
Déficit habitacional no Brasil: https://www.irib.org.br/deficit-habitacional-brasileiro-esta-em-5-9-milhoes-de-unidades/
Trabalho de crianças e adolescentes no Brasil: https://www.fadc.org.br/noticias/trabalho-infantil-atinge-16-milhao-de-criancas-e-adolescentes-no-brasil
Empreendedorismo feminino: https://www.cnnbrasil.com.br/colunas/geyze-diniz/economia/macroeconomia/empreendedorismo-feminino-nao-e-tendencia-e-transformacao/
Déficit hídrico: cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-perdeu-400-mil-hectares-de-superficie-de-agua-no-ultimo-ano


