Outro dia me peguei na rua, à noite, sem possibilidade de chamar um carro por aplicativo. Um problema da operadora me deixou sem internet no celular e, consequentemente, sem possibilidade de fazer muita coisa já que, atualmente, muito se depende desse combo smartphone e internet.
Naturalmente meu primeiro impulso foi esbravejar contra a operadora de telefonia. A ANATEL realiza pesquisas de satisfação há 10 anos e, mesmo que os números positivos venham aumentando, ainda há um percentual próximo de 40% de usuários muito insatisfeitos com o serviço prestado pelas operadoras.
Mas, enquanto me refugiava—e, com o medo, a sensação era exatamente essa—em um centro de compras próximo para tentar resolver o problema ou conseguir um wi-fi, pensei: o real problema não é a operadora, mas a violência.
Só uma mulher sabe o que é estar sozinha na rua à noite. Não há exercício de empatia que consiga colocar um homem nessa situação.
Segundo o estudo Urbanismo Sensível ao Gênero: como oferecer cidades seguras para as mulheres, elaborado pela Consultoria Legislativa do Senado, no Brasil, uma mulher é vítima de assédio nas ruas a cada 1,5 segundo; a cada 6,9 segundos, uma mulher é vítima de perseguição; e, a cada 7,2 segundos, uma mulher sofre violência física. E isso não ocorre somente à noite. Mortes decorrentes de violência (homicídios, roubos seguidos de morte) cresceram 2% em 2025 em comparação a 2024.
Depois de me conectar a uma rede disponível e chamar o carro por aplicativo, uma felicidade: era uma motorista mulher! Isso, também, só nós sabemos o valor que tem.
Já em casa, tentando resolver o problema, agora com internet disponível, voltei a refletir sobre nossa dependência. No livro Error 404, Esther Paniagua discute como a ausência da internet, hoje, representa quase uma suspensão da vida. Sem conexão, perdemos acesso a serviços, informações, trabalho, orientação e, muitas vezes, à própria sensação de pertencimento ao mundo. Estar offline, embora comece a ser buscado por algumas pessoas como “o novo luxo” (mas isso é assunto para outro texto), passou a ser uma vulnerabilidade.
E, naquela noite, ficou a pergunta: o que é mais difícil: a falta de internet ou a falta de segurança? A tecnologia falha, mas a sociedade também falha. A conexão cai, mas o medo permanece estável—e, às vezes, crescente. Sem internet, fiquei temporariamente limitada. Sem segurança, ficamos permanentemente acuadas.
Talvez o erro 404 da rede não seja nada perto do erro estrutural de termos naturalizado viver com medo. A internet caiu por alguns minutos. A violência segue subindo.
Para saber mais
Violência contra mulher bateu recordes em 2025: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/20/brasil-registra-recorde-historicos-de-feminicidios-em-2025-quatro-mulheres-sao-assassinadas-por-dia-no-pais.ghtml?utm_source=the_news&utm_medium=newsletter&utm_campaign=21-01-2026&_bhlid=78f9a9ed1ca64f276e4cf6269c7c083092281223)
Violência urbana contra as mulheres: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/685878/TD337_2025.pdf?sequence=1&isAllowed=y
Error 404, Esther Paniagua: https://www.bbc.com/portuguese/geral-63649908

