No interior do Rio Grande do Sul, antes das políticas públicas estimularem a cultura local, existiu — e ainda existe — uma engrenagem social discreta que sustentou, e sustenta, cidades inteiras: as festas de comunidade, também conhecidas como festas de igreja. Nada disso é somente evento religioso ou momentos de lazer, é também instrumento de organização social, econômica e uma afirmação cultural do povo gaúcho do interior.
Essas festas surgem junto com a própria formação das comunidades coloniais. Onde havia uma capela, surgia um salão central. Onde havia um salão, nascia uma festa. Igreja e salão paroquial formavam um conjunto inseparável, não apenas no espaço físico, mas no contexto social. A fé organizava, mas era o trabalho coletivo da comunidade que mantinha tudo funcionando. Cada festa era construída com festeiros, mutirão de comunidade, com doação de tempo, de alimentos, de saberes e de confiança no outro.
Em São Francisco de Paula essa tradição é antiga e a cidade transformou festas de paróquia em verdadeiras instituições econômicas e culturais para o local. Muitas localidades cresceram e se organizaram, se estruturaram tendo essas festas como um de seus pilares centrais. E na última tarde de sábado (24/01) aconteceu a Festa em Honra de Nossa Senhora das Graças, São Luiz Gonzaga e Santo Antônio, na comunidade da Várzea Grande, Distrito de Tainhas, em São Francisco de Paula, com missa, almoço, rifa, baile, escolha da boneca viva e da rainha da festa e o primeiro encontro de gaiteiros da terra. A Várzea do Cedro, no distrito de Tainhas, é conhecida por ser uma planície cercada por coxilhas (colinas) típicas da Serra Gaúcha, com presença de riachos, açudes e vertentes de água. Na região, predominantemente rural, as propriedades focam suas atividades na agricultura, pecuária e silvicultura. Uma rotina de muito trabalho e longas distâncias entre as propriedades, mas com o salão paroquial unindo todos.
Sob a ótica histórica, essas festas também cumpriram um papel fundamental na preservação da identidade gaúcha do interior. Em um estado marcado por intensos processos migratórios e por rápidas transformações econômicas, as festas de comunidade funcionaram como âncoras culturais. Mantiveram vivas os sotaques, as receitas, as músicas e os costumes. Foram espaços onde o tradicional não se opôs ao novo, mas permitiram diálogos.
Do ponto de vista econômico, as festas de comunidade funcionam como verdadeiras cooperativas temporárias. No passado, o churrasco, a galinhada, a cuca, o pão caseiro, o queijo, o salame não eram comprados prontos: eram produzidos pela própria comunidade. O dinheiro circulava localmente, fortalecendo pequenos produtores, açougues, padarias e transportadores. A banda contratada para os bailes, muitas vezes regional, levava renda para outro município, criando um ciclo econômico que conectava várias cidades do interior.
O baile, elemento central dessas festas, nunca foi apenas diversão, mas o espaço de socialização, de construção de laços afetivos, de formação de famílias e de transmissão cultural. O salão paroquial era, ao mesmo tempo, pista de dança, assembleia popular e escola informal de cidadania.
Há ainda um aspecto simbólico profundo: a ideia de pertencimento. A festa não é “de alguém”, é “da comunidade”. Todos sabem quem assa a carne, quem serve a mesa, quem faz os doces, quem limpa o salão depois do baile acabar, ao amanhecer. Não há anonimato. Existe responsabilidade coletiva. Esse modelo social produziu, e produz, um tipo de capital que não aparece em estatísticas econômicas, mas que sustentou cidades inteiras até hoje: a confiança.
Com o passar das décadas, muitas dessas festas enfrentaram desafios: êxodo rural, envelhecimento da população, mudanças nos hábitos de consumo e lazer. Ainda assim, as festas resistem, como a da Várzea do Cedro. Resistem porque não são apenas eventos: são estruturas históricas vivas. Cada festa realizada é um ato de memória, um gesto de resistência cultural e uma afirmação de que o interior do Rio Grande do Sul continua sendo um espaço de vida comunitária profunda. E na Várzea ainda houve inovação cultural, o 1° Encontro dos Gaiteiros da Terra, que reuniu músicos talentosos da cidade e homenageou a acordeonista Neusa Regina, musicista, acordeonista, e gaiteira autodidata, com 40 anos de trajetória musical no cenário tradicionalista gaúcha. Neusa contribui culturalmente com concursos, festivais, rádio, televisão e em diversas comunidades tocando e animando bailes na região Sul do Brasil com o Grupo Nossas Raízes e Presilha Serrana.
Entender as festas de comunidade e seu universo é entender como o Rio Grande do Sul se construiu longe das capitais, longe dos holofotes, mas perto das pessoas. É reconhecer que, muitas vezes, foi o churrasco do domingo, o baile da paróquia e o trabalho voluntário que mantiveram cidades inteiras funcionando quando tudo o mais faltava.


