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Coluna da Ana

Ana Oliveira

Princípios da Educação Popular na valorização dos Saberes – Relato de uma educadora popular.

A educação brasileira é sustentada por pilares robustos no papel. Desde a Constituição de 1988, o Artigo 6º estabelece a educação como um direito social, reforçado pelo Artigo 205, que a define como dever do Estado e da família. Temos ainda a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como sentinelas desse direito. Mas, para além dos números — que em 2017 já apontavam quase 50 milhões de alunos na educação básica —, existe uma pergunta fundamental: que tipo de conhecimento estamos construindo nesses espaços? E além disso, como esses direitos são aplicados em currículos de escolas indígenas? Existem garantias do direito à educação escolar indígena de ensino intercultural previstos na Legislação?

         Minha trajetória foi moldada, em grande parte, pelo ensino tradicional e técnico-científico, mas, apesar disso, sempre flertei com a educação popular – talvez por influência das oficinas de que eu participava quando criança, em programas de contraturno, nas quais sentia que tínhamos mais liberdade ao ter aulas com professores que praticavam essa modalidade. Lembro-me de quanto foi marcante para mim, durante a graduação, realizar uma formação sobre Pedagogia Histórico-Crítica (PHC), desenvolvida por Dermeval Saviani no Brasil; foi ali que conheci um pouco mais sobre o que conceitualmente chamaríamos de Educação Popular. Esse tipo de pedagogia influenciou meu modo de ser e ajudou-me a entender que os espaços educativos não precisam seguir sempre modelos homogêneos, nos quais todos aprendem as mesmas coisas da mesma forma. A educação pode ser plural, dinâmica e aberta à diversidade de saberes. Na aldeia onde hoje sou educadora, essa pluralidade se manifesta todos os dias. Quando ensino sobre os biomas brasileiros, por exemplo, não apresento apenas os conceitos científicos; falo também sobre como os povos indígenas entendem e cuidam desses territórios, sobre as práticas tradicionais de preservação e sobre a relação espiritual com a natureza. Essa integração de saberes não só enriquece o aprendizado, mas também prepara os alunos para viver em um mundo plural e interconectado. A Educação Popular é, para mim, uma forma de garantir que a escola seja um espaço onde todos os conhecimentos são valorizados e respeitados. Aqui, ensinar Geografia, História e Linguagens é também falar sobre as trajetórias dos povos indígenas, suas lutas, conquistas e sua relação com o meio ambiente. É mostrar que o conhecimento não está apenas nos livros, mas também nas práticas, nas memórias e nas vivências das comunidades. Muitas vezes, o sistema educacional tradicional marginaliza esses saberes, criando uma sensação de alienação. No entanto, quando eles são valorizados, os alunos passam a se ver como parte do processo educativo, sentindo-se pertencentes e orgulhosos de suas raízes. Ser educadora popular é uma forma de resistência e de esperança. É acreditar que a educação pode ser um caminho para uma sociedade mais justa, onde a diversidade cultural é celebrada. Nas comunidades tradicionais, há uma cultura e uma tradição intrínsecas aos seus saberes e fazeres; são conhecimentos fundamentais para a identidade desses grupos, que prevalecem e vêm sendo transmitidos de geração a geração. O entendimento humano sobre as propriedades medicinais das plantas misturou-se à sua própria gênese, assim como o uso de ervas para curar moléstias faz parte da sobrevivência da espécie. Os profissionais que trabalham com esses grupos precisam ter ciência desses saberes prévios e, ao adentrar nos territórios, respeitá-los. Devem utilizar seu conhecimento formal para promover uma troca de saberes, e não para impor crenças externas. Os conhecimentos comunitários são fatores de conservação da biodiversidade e, em um cenário de emergência climática, tornam-se essenciais para a continuidade da vida e do planeta. Em tempos de emergência climática, esses saberes me parecem, mais do que nunca, essenciais para a continuidade da vida humana e que faz gentes brilhantes, brilharem.

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