A gente se acostuma a passar dias inteiros sentados, como se a imobilidade fosse um detalhe inevitável da vida, mas não devia.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 31% dos adultos do planeta não atingem o mínimo recomendado de prática de atividade física. No Brasil, esse indicador ultrapassa os 40%. A recomendação oficial é de 150 minutos semanais de atividade física moderada para adultos e sabe-se que, além de promover saúde física, a prática regular de exercícios reduz sintomas de ansiedade e depressão em cerca de 30%.
Estamos nos acostumando a uma alimentação com produtos que nossas avós não reconheceriam, e que não consideram a geografia ou a estação do ano: são fabricados em laboratório. Mas não deveríamos. Menos de 25% da população do Brasil segue a recomendação da OMS para consumo diário de frutas e verduras. A descoberta, publicada na revista científica Cadernos de Saúde Pública, mostra que esses alimentos saíram da lista de compras dos brasileiros pela crise econômica e pela busca da praticidade dos ultraprocessados.
A gente se acostuma a viver sem leitura, mas não devia. Dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, edição de 2024, mostram que, pela primeira vez, a maioria da população brasileira é de não-leitores. Apenas 47% se declaram leitores, considerado alguém que leu pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos últimos três meses, marcando um declínio histórico e a perda de quase 7 milhões de leitores desde 2019, com queda em todos os perfis.
Sabe-se que quinze minutos diários de leitura mudam o vocabulário, o senso crítico e a capacidade de imaginar futuros, mas estamos nos alimentando de vídeos de 30 segundos. E não deveríamos: a leitura regular está associada a melhor desempenho cognitivo, empatia e pensamento crítico. Avaliações internacionais como PISA, mostram, há tempo, que países com maior média de leitura anual apresentam melhores indicadores educacionais. E isso tem impacto direto sobre a qualidade de vida no futuro.
Estamos nos acostumando a não estar presentes. E, definitivamente, não deveríamos. Estamos nas telas, ausentes da vida. Em todas as partes, e em lugar nenhum. A OMS declarou a solidão e o isolamento social como um problema de saúde pública global, associando-os a maior risco de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares e mortalidade precoce. Pessoas socialmente isoladas têm risco de morte até 29% maior em comparação com aquelas com vínculos sociais consistentes.
Pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Harvard, publicada na revista JAMA Network Open, acompanhou jovens adultos que reduziram drasticamente o uso de plataformas como Instagram, TikTok e Facebook por apenas uma semana e os resultados indicaram redução de 25% nos sintomas de depressão, 16% de ansiedade e 15% de insônia.
Temos muitos desafios e, talvez a maioria deles, fujam do nosso total controle. Mas não podemos nos acostumar.
A crônica ‘Eu sei, mas não devia’, publicada por Marina Colasanti em 1972, continua nos fazendo refletir hoje e inspirou este artigo.
Para sabem mais:
Recomendações da OMS: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity
A popularidade dos alimentos ultraprocessados: https://jornal.unesp.br/2024/01/11/a-popularidade-dos-alimentos-ultraprocessados-e-os-desafios-de-assegurar-alimentacao-saudavel-para-a-populacao-brasileira/#:~:text=Motivadas%20pela%20facilidade%20de%20consumo,antes%20de%20chegarem%20%C3%A0%20mesa.
Retratos da Leitura no Brasil: https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Retratos_da_Leitura_2024_13-11_SITE.pdf
Menos redes sociais, e aí? https://g1.globo.com/saude/saude-mental/noticia/2025/12/22/uma-semana-com-menos-redes-sociais-reduz-sinais-de-ansiedade-depressao-e-insonia-em-jovens-diz-estudo.ghtml


