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Coluna da Marta

Marta Schlichting

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome

“ (…) Gente quer comer, gente quer ser feliz

Gente quer respirar ar pelo nariz

Não, meu nego, não traia nunca essa força, não

Essa força que mora em seu coração (…)”

Na contagem regressiva para 2026, ressoa aqui essa música do Caetano, uma obra-prima entre tantas outras do nosso artista genial.  Ressoa porque, às vésperas da virada de ano, mais uma vez me dou conta que a felicidade que desejamos deveria ser, na verdade, um estado de bem-estar social. As ceias instagramáveis de Natal e Ano Novo, as imagens de viagens e famílias radiantes – fartamente documentadas nas redes sociais – tudo isso sempre me desacomoda. Não que eu esteja imune a repetir o mesmo comportamento narcisista, que de fato não é pecado capital, mas que aponta para aquele velho mundo que não abraça a maioria.  Sem pieguices, eu renovo a cada ano o meu desejo de incluir outras milhões de pessoas nestas fotos e vídeos num futuro breve. “You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one”.  Felizmente.

A minha turma – que está entre os Baby Boomers e a Geração X – costumava afirmar que “um outro mundo é possível”. Um brado que me faz ter orgulho dos meus pares, de ser eternamente grata  aos que não desistiram de repeti-lo. É ingenuidade você pode pensar.  Pra mim é sonho, propósito que me põe em movimento. Ninguém deveria ter vocação para ser um indivíduo amorfo, destituído de empatia, sem coragem para interferir no que lhe parece injusto.  É espantoso que os bilhões de ser humaninhos que habitam o planeta ainda não tenham entendido o ponto central da nossa existência: somos interdependentes. A felicidade plena depende do coletivo, porque enquanto houver desigualdades, haverá insegurança, medo e ausência de paz social.

Não se trata de discurso hiponga ou new age.  Trata-se de reconhecer as mazelas que atravessam nossa sociedade, trata-se de espernear contra esse sistemão que engole e suga o  sangue de uns, mais do que outros, que normaliza privilégios e aprofunda, cada vez mais, as diferenças. Dos algoritmos à mais-valia, da meritocracia à positividade tóxica, tudo faz parte da realidade que beneficia os illuminatis. E, nós, classe média achatada entre os dois pólos, quanto mais individualistas formos, mais úteis seremos aos poderosos, mesmo que eles não nos prometam nada.

Portanto, se tem algo que desejo para 2026, 2027, 28 e ad aeternum é um novo mundo que priorize o coletivo. Que a gente olhe para os lados e entenda que, mesmo virtuosa, a caridade não toca a raiz dos problemas.  O que muda o mundo são as políticas públicas, estas que devemos cobrar, insistentemente, dos nossos representantes em todas as esferas do executivo e legislativo. Porque para termos um ano novo e uma vida melhor é urgente nos olharmos no espelho e nos reconhecermos como cidadãos, não como clientes. Que me perdoem os terrivelmente religiosos, mas nossos destinos estão em nossas mãos.

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