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Coluna da Paty

Patrícia Viale

É sobre ter tempo

Esta narrativa é sobre aquela fase em que os minutos sobravam a todo instante e que, para gastar o amontoado de segundos, se caminhava até a quase exaustão. Era tanto tempo sobrando, que as visitas à Biblioteca Pública Cyro Martins, em Gramado, eram diárias. Quase que um livro lido por dia. Para quem não tinha carro, dependia de ônibus para se deslocar entre a casa e o trabalho, morava longe da família, procurava trabalho e não tinha televisão, o livro era não somente a melhor, mas a única alternativa para sobreviver naquele inverno de 1994. 

A mudança de Porto Alegre para a Região das Hortênsias foi uma fuga. Pais divorciados, faculdade finalizada. Não existia alternativa, era preciso assumir algo, era preciso trabalhar, era preciso crescer como gente. Os 21 anos de idade daquela época mais se confundiam do que se assumiam. O mundo vivido não era o da realidade, mas o dos sonhos. Sonhava ser escritora. Sonhava com paz e tranquilidade. Sonhava com tudo que sobrevive apenas no universo dos sonhos. 

Naquela época, o acervo da Biblioteca Pública de Gramado era variado, rico e perfeito para quem precisava ocupar o tempo com histórias alheias. Em um primeiro momento consumi literatura russa. Talvez porque fosse inverno e ler sobre o frio rigoroso dos outros parecia aquecer a minha desesperança. O que fazia uma guria recém formada, longe da família, com dinheiro contado, com muitos sonhos e nenhuma perspectiva real de trabalho? Ela lia. E lia muito. Leitura era o que existia, o que alegrava, o que bastava. 

Qualquer sentada em banco público era livro aberto. As esperas pelo ônibus na rodoviária tinham livro aberto. Lia com o transporte em movimento. Lia fazendo lanche, antes de dormir, com sol, chuva, com tédio ou alegria. Trezentas páginas não assustavam. Cinquenta páginas assustavam, porque a leitura seria rápida e faltaria companhia. Não tinha cachorro, gato, nem passarinho para conversar. Tinha árvore para abraçar, mas a guria ainda não sabia deste amor pela natureza. 

Não sei se ficou saudade daquela estação. A certeza que tenho é do orgulho daquelas vivências. Não voltei para a casa da minha mãe. Não baixei a cabeça. Não desisti nem do jornalismo, nem da literatura. E neste aprender a não desistir é que me tornei gente.

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